London, London


Arruma tuas malas minha criança. “Bora” pra renascer no novo-velho-mundo.

Pega tua cara e tua coragem pra vencer o que desconheces.

Leva teu sorriso pra enfeitar a paisagem.

Não esqueças da chave da mente  nem do fogo de incendiar o coração.  Precisarás deles pra encontrar o que necessitas.

Pega tuas quimeras de mulher-menina pra te guiar ao destino, um pedacinho dos teus pra cimentar tua vontade  e o vidrinho de lágrimas pra lavar tua saudade.

Não falte o caderno da memória pra alimentar as lembranças.

Que Shakespeare te tatue nos olhos e que os beatles orem nos teus ouvidos.

Que o “fog” londrino te vista a alma de paz.

Que a realeza te encante. E a realidade te esculpa.

Que a liberdade amiga brote definitiva em teus poros.  E a “responsa” madrinha embale sereno teu sono.

Que vejas sempre teu TER como objetivo e teu SER como princípio.

Que os sonhos meus sejam luar nos sonhos teus .

Que Deus fale em inglês na tua voz. Teu pai te espera pra ouvir.

E que, na volta, dividas o butim.

Vai Biquinha, Vai!

Me leva amor


Quem, com mais de 40,  em alguma beira da vida,  ainda não cantou o  refrão “por onde for quero ser seu par”?

Da letra de “Andança”, de Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, imortalizada na voz de Beth Carvalho,  poucos  além do artista lembram na hora de cantar. Mas quem esquece de “me leva amor”? Não é à toa que o coro é um ícone nacional.

Tá! E aí?

A música me veio à cabeça anteontem, quando me despedi de um grande amigo.

Um amigo de olhar em festa, que me viu nascer, me ensinou algumas lendas do caminho, riu e chorou comigo. Deu significado a muitas coisas que vivenciei e que fazem parte da bagagem que carrego todos os dias.

Foi embora sem perguntar se podia, mas não sem antes deixar, ao seu estilo, mais uma lição para pensar. Sim,  suas lições nunca foram prontas. Ao final, implícita ou explicitamente,  sempre estava o mesmo fechamento: – “Segue teu rumo”.

Mesmo que, como inúmeras vezes, ele não tivesse intenção de ensinar nada, cedo ou tarde eu acabaria enxergando a utilidade do seu “latim”.

Não foi diferente na sua partida. Sem querer mexeu num vespeiro de onde, vez em quando, me sobram algumas ferroadas (ou será nos sobram?).

Pode um amor durar eternamente? Voltarei a pensar no assunto pois acho que o dele enganou até a morte.

Antes de partir pra sempre, dirigiu suas últimas palavras à verdadeira dona do seu coração: – ” Me leva amor”.

A mim, que no passo da estrada só faço andar, restará dele uma saudade imensa.

Digam o gosto prá mim


15 de janeiro de 2011, 10:49, Nazareth -Israel.

Era onde eu estava quando senti a espinha novamente congelar ao saber, do nosso guia, o que eu fotografava.

Entrada da casa de Maria e José

Local da casa de Maria e José em Nazareth

Um dos vários momentos onde tive consciência da minha enorme “pequenez”, sim eu estava na igreja da Natividade profanando a entrada preservada do local onde moraram Maria e José. Simplesmente o local onde souberam que trariam ao mundo nosso aniversariante de domingo.

Imaginei o anjo Gabriel me dando uma “bifa” e passando uma descompostura. -”Olha o respeito seu moleque”!

Sem voz eu já estava.

Embriagado da seqüência de emoções que vivia, por alguns segundos, fechei os olhos e pensei na vida.

Tentei pensar em tudo que ganhei, no que conquistei, no que não consegui, no que perdi, nos meus acertos, nos meus erros (congênitos, adquiridos e atribuídos), enfim, tentei pensar no que foi a minha vida e no que fui para todas as pessoas que estão ou que estiveram de alguma forma perto de mim.

Foi tudo muito rápido. Eu não poderia esquecer de nada e de ninguém. Deixei então uma prece genérica à porta da família.

Não me lembro de todo o conteúdo mas foi mais ou menos assim:  Clica ali no vídeo!

Tive de esconder um pingo solitário que fugiu do meu olho.

Neste Natal sejam felizes, abracem (ainda que em oração) os seus e digam o gosto prá mim.

Ah! Não esqueçam dos parabéns ao aniversariante.

E que ELE “bless you”. Os que crêem e os que não.

Onde estás que não respondes?


Não. Não falarei sobre Castro Alves. Apenas peguei um “gancho” de suas “Vozes d’África” prá colocar aqui um texto antigo.
Houve um momento em que minhas discussões com Deus tinham uma freqüência (eu ainda uso trema) muito grande. E eu sempre fazia a pergunta.
Cheguei a fingir ter cortado relações. Meu enredo não era bom e eu queria esquecer de tudo que cresci ouvindo sobre Ele.
Parei de falar com Ele com muita gente querida.
Depois de muito tempo assim, fui provocado a escrever uma mensagem para minha irmã que voltava de um encontro com Ele.
Sacanagem! Ele sabia que eu não desapontaria Lili, mesmo que há muito tempo não escrevesse mais do que meu nome (assinado em papéis de trabalho). Era uma de Suas formas de me responder.
O original está abaixo da música do Cazuza. Publiquei o original porque não achei a versão que foi retocada por uma amigo que queria usar o texto num evento de seu trabalho. Eu achei que ficou bem melhor. Um detalhe: meu amigo se declara ateu.
A música? Usei como oração final no texto que mandei para Lili. Preferi mostrar aqui a letra com a música.
Deus é um gozador. Responde de cada jeito.

Mensagem para Lili (Emaús)

Brasília, 14 de agosto de 1999.
Lili,
Partindo de mim pode parecer estranho o que te escrevo agora.
Vou te falar de Deus: o meu Deus.
Para muitos ele pode até parecer que não existe, mas eu o tenho e acho que é igual ao de todos. Apenas é discreto e se manifesta de forma diferente daquela convencional.
Sei também que muitos vêem o meu Deus. Podem achá-lo um pouco estranho, mas o reconhecem e o aceitam. Outros apenas o criticam. Alguns querem vê-lo a qualquer custo, mas ele é sutil e só se mostra por metáforas como o Deus de todo mundo.
Meu Deus toca por Mozart e canta por Cartola, Chico, Noel, Lupicínio, Cazuza e muitos outros.
Frequenta os bares da boemia, fica até tarde e vai dormir na rua com as crianças abandonadas.
É incapaz de castigar mesmo às piores faltas. Não julga nem quer ser temido. Quer ser amado. Não condena, não cobra, não assusta, não abandona. Ama incondicionalmente.
Ele ensina e pede sempre que nos lembremos que o inferno não foi criação dele e que, portanto, para ele não existe.
Ele quer que o amor prevaleça, em todas as suas formas, sobre todas as coisas.
Ele pede que eu chore meus mortos, mas é para que eu me lembre de aproveitar mais meus vivos.
Ele está sempre comigo até mesmo nos momentos em que eu o nego.
Sorri quando eu acerto e chora quando eu erro e, assim, vai me mostrando para onde estou caminhando.
É ele quem me dá coragem para tomar as decisões duras e quem me protege quando o mundo vai desabar, mesmo que eu não queira ou peça.
É ele quem não deixa eu me afastar de uma missão que nem eu mesmo sei qual é. E por isso eu vou indo, tentando, caindo, levantando e conseguindo levar a vida.
Meu Deus faz da ausência a presença porque me sintoniza no coração.
Coração que aliás ele protegeu com a capa de pedra que conheces muito bem, mas foi para evitar que sua fragilidade fosse um alvo muito fácil.
Meu Deus é hereditário e se aperfeiçoa na Terra a cada geração. Por isso é imortal.
Meus Deus viveu ontem, vive hoje e viverá amanhã. Ele me diz que ontem “já era”, que o amanhã só ele sabe e quer que eu viva o hoje, que eu me arrependa apenas do que eu não fiz e que esqueça o que fiz de errado para não sofrer. Mas quer também quer que eu não repita os erros. Apesar disso tolerará as reincidências porque sabe que eu sou imperfeito.
Ele ri dos meus mitos como um pai ri da inexperiência de seus filhos.
Ele sente não poder transmitir mais claramente o que é certo e o que é errado pois não quer nos dirigir. Então ele sofre calado por não enxergarmos.
Se for preciso ele bate, mas acariciando, e acaricia, batendo, para mostrar que o livre-arbítrio foi um presente que deve ser usado com bom-senso.
Meu Deus quer que eu fale dele e nele, mas prefere os gestos às palavras.
Ele sabe que as palavras ferem e às vezes afastam. Os gestos ensinam, são mais eloqüentes e não são esquecidos depois de serem percebidos.
Ele respeita o fato de eu não saber falar e aceita se eu só gesticular.
Meu Deus é assim, e muito mais do que tudo isto, é indescritível. Só pode ser sentido. Mas é real e vivo. Ele está aqui comigo e também está contigo, como eu.
Tu o deves estar vendo agora. Talvez um pouco mais claro.
Teu Deus pode ser um pouco diferente na forma, mas não na essência. Eu sei.
Não importa. O importante é sentí-lo e reconhecê-lo, em tudo e em todos, pois ele está lá e também gosta de ser reconhecido. Ele é o mesmo para todos e quer todos sempre juntos, a despeito de tudo. Ele também é paciente e sábio. Esperou até aqui para me fazer quebrar um silêncio de muito tempo e escrever para todos numa mensagem para ti.
Um grande beijo para ti. Abrace a todos por mim e pelo meu Deus. Ele me mandou te pedir.
Do teu irmão que, a sua maneira, reza por ti e por todos nós.

Júnior.

Quando estou com você estou nos braços da paz


Ainda bem que existe Dominguinhos! Ainda bem que existem os poetas!

Como falariam os que pertencem às legiões dos “sem-palavras mas com coração”?

Palavras engasgadas matam mais que “bala de revórver”. E quem não diz, porque não aprendeu a falar  ou porque emudeceu operado pelo mundo-cão, tem que achar alguém que diga. Do contrário a implosão é garantida.

A alma de um poeta destilada em versos, ainda mais se servida com música, é o remédio genérico para a mudez congênita ou adquirida. 

Jogada ao vento atingirá vários alvos como uma chuva de flechas. E, independentemente da intensidade medida em decibéis, só ouvidos moucos ou  absoluta surdez impedirão o tiro certeiro.

Como prêmio do arqueiro as palavras sussurradas nos gritos da poesia pertencerão somente a ele e a seu alvo. Os demais alvejados só imaginarão um atirador preferido.

Tá com dificuldade de dizer o que pensa? Escolhe um poeta e manda ver.

Tenta. Explode. O resultado é gostoso demais.

Uma catarse afetiva


  É quando a barra pesa e o coração pulsa na boca que se tenta exorcizar os capetas que teimam em nos habitar.

O método de exorcismo depende muito do tamanho do demônio e da força do possuído.

Alguns são realmente criados a “Toddy”, outros parecem muito maiores do que realmente são.

Um ombro-amigo faz a diferença na hora de calibrar o tamanho da assombração.

Um de meus amigos, poeta e músico, gente da noite que sabe sintetizar o sentimento dos outros, me procurou para mostrar algo que escreveu logo após sua recente separação.

Uma poesia que em breve será letra e, mais tarde, música.

Quem sou eu? Pensei. Um amigo: foi a resposta que me dei, e fiquei satisfeito por isto.

Quando for musicada colocarei aqui, pois tenho a certeza de que ficará muito boa.

Por enquanto fiquem com o texto.

Se o “demo” deu o prefixo e vazou? Não sei, provavelmente ainda não. E uma cicatriz sempre vai ficar. Mas com certeza a expressão do sentimento ajudou a aplacar a dor.

Às vezes me vejo nos meus amigos.

Bachilli, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima.

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Pelo Amor

Pelo amor confundi muitos,

mesmo a nós, estando juntos,

mesmo a mim, querendo tantos,

mesmo o encanto dando sustos.

Busquei no tempo argumentos,

que mais parecem verdades,

memórias que, tão suaves,

refazem certezas e sensos.

Se o sonho e a idade animam,

o medo e a paixão ofuscam.

Mas tempo e verdade iluminam.

E o querer e a vida se buscam.

Tempestade vespertina


Navegando pelo oceano virtual, no fim de tarde chuvoso do Portinho, eu procurava por coisas que ainda preciso voltar a fazer. Como velejar por exemplo.

Sim! Sou um “lagujo”, como chamava o Velho Popeye àqueles a quem ensinou a arte da vela no lago Paranoá. Aliás pensei se o Velho Fernandes, figuraça, ainda vive. Tomara que sim.

Comecei tentando colocar aqui mais alguma coisa sobre minha viagem a Israel, mas as idéias não vinham. Então mudei de direção, coloquei o Chico a cantar e fui atrás do curso de “capitão amador”.

Acabei colidindo sem querer com um texto, sem assinatura, meio estranho na primeira leitura apesar de conter uma linguagem familiar a quem navega. Li mais de uma vez e me pareceu ter alguns pontos que “casavam” com a música que ouvia.

Acabei tentando decifrá-lo e pensei em várias interpretações. Enfim me vi, no ocaso da tarde, envolvido numa tempestade de pensamentos bons.

Não contarei o que pensei mas resolvi compartilhar minha viagem com quem estiver lendo. Talvez lhe venha à mente alguma coisa boa. 

Só prá ajudar a quem não souber muito sobre navegação, pincei alguns termos e traduzi (ou comentei) para facilitar a leitura.

Bombordo é lado esquerdo do barco. A estrela polar só pode ser vista no hemisfério norte e aponta para o mesmo ponto cardeal na terra (não é tão simples assim mas o raciocínio é válido). A proa é a frente do barco e a palavra também é utilizada para referenciar a direção em que o barco está navegando. Catau é um nó utilizado normalmente para reforçar cabos que estão prestes a rebentar.

Capitães das naus dos mares virtuais: puxei a âncora e peguei o timão novamente. Fui.

Mensagem engarrafada

As Três Marias estão lá.

Mas não as vejo.

Tento: de noite, de dia.

Mas há nuvens no céu escuro.

Olho na direção da Estrela Polar.

Mas minha proa é oposta.

E o hemisfério é outro.

Só posso imaginá-la.

Meu mapa caiu no mar.

Não tenho a rota na memória.

Estou à deriva.

Preciso de uma estrela ou de resgate.

Apareceu no firmamento uma Estrela Diurna.

Não a identifico, mas brilha muito.

Mais do que o sol que apareceu e, mesmo sem saber,

Não tem forças para ofuscá-la.

Peguei dela um rumo emprestado.

Que me levou direto prá bombordo.

Velas içadas, minha vida é navegar.

Preciso ir. Pedi um vento urgente.

Mareado das tempestades,

E amarras com “nó de catau”,

Vento no rosto, fui sangrando, fui singrando.

Segurando a vida como água na palma da mão.

A noite cai no horizonte malvado,

Que engolirá a única estrela que eu via.

Não saberei do porto que me espera.

Onde estão minhas Três Marias? Preciso delas prá navegar.

Será que lá na frente está o cais?

Se eu naufragar? Não tive medo de errar.

A terra não vai parar de girar.

E amanhã? Terei eu um dia a mais?

Se tiver olharei na direção da Estrela Diurna.

E buscarei no céu inteiro um sinal seu.

Vou refazer o mapa que perdi só prá achá-la nas tardes.

Ainda que, ao fim, eu olhe pelas janelas dos umbrais.